segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Boemia eterna


As cinzas de Gil, o “presidente”, repousam na entrada do seu bar predileto em Copacabana


Por Felipe Sales
Publicado em Carta Capital






O número 698-B da Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, é mais que o endereço de um legítimo pé-sujo carioca, com direito a ovos coloridos, azulejos engordurados e cardápio de placa amarela na parede. São pouco mais de cinco metros quadrados preenchidos por nove mesas, muitas sombras e excessivos decibéis, graças ao embate frenético de ônibus, carros e multidões a transitar a dois metros do balcão. Dia sim, outro também, é ali que um grupo de amigos, moradores da região, se encontra há mais de 50 anos. Mas Gilberto Antônio de Lima e Souza, o querido Gil, ou simplesmente “presidente”, achou pouco. E hoje ele jaz eterno, em forma de cinzas, num vaso prostrado na porta da birosca, ornamentado não por flores, mas por guimbas regadas a doses que, salvo engano, iriam “para o santo”.


Gil chegava sempre por volta de meio-dia, saudava seu Juan, o dono do bar, e se derramava na mesa 1, ao lado do vaso que seria seu túmulo, onde nenhum amigo ousa sentar novamente. Tinha 1,90 metro de paradoxos bem distribuídos: apesar do corpanzil imponente, delineado por um abdômen definido em barris de chope, erguia copos e talheres com a delizadeza de uma bailarina. Com uma voz calejada em ressacas, falava cada palavra sem pressa, quase sempre sob um riso frouxo entre os lábios, e agregando, assim, até os seres mais moribundos que por lá circulavam. “Ninguém é chamado de presidente à toa...”, lembra seu Juan, sorumbático como de hábito, até uma lembrança lhe escapar um sorriso: “Ele nunca pedia fiado”.





Mineiro de Belo Horizonte, o presidente desembarcou no Rio de Janeiro aos três anos. E foi nas areias de Copacabana, como jogador de vôlei, que arrebanhou amigos que o acompanhariam pela vida, e pela boemia, afora. Campeão brasileiro pelo Botafogo, tornou-se benemérito da Federação de Vôlei do Rio em 1959, ao lado do hoje poderoso presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Até que uma contusão no joelho e uma crescente demanda por esbórnia, o fez migrar para os azulejos gastos do Bar Barta Ribeiro, onde passaria boa parte da vida. E, agora, da morte.


O perpétuo boêmio tornou-se funcionário do Detran. Levou uma vida confortável, garantida ainda por supostos investimentos bem-sucedidos na Bolsa de Valores. Tempos depois veio o casamento e o nascimento dos dois filhos, obrigando-o a trocar a vizinhança do botequim por uma simpática vila na Gávea, onde, pela ironia do acaso, calhou de ser vizinho de Vinícius de Moraes. O poetinha, sempre que lhe faltava água de beber, buscava com o amigo o “cão engarrafado”. “Podia ser de manhã ou de madrugada”, conta Giuliano Chediak, filho caçula do presidente. “Meu pai gostava tanto dele que até escondeu o motivo de o meu cachorro ter desaparecido. Achávamos que ele tinha fugido. Até que, muito tempo depois, vi numa revista a foto do meu cachorro com Vinícius passando uma tarde em Itapoá.”





Nessa época, ele começou a frequentar outras rodas de amigos e até fez pontas em alguns filmes, entre eles os clássicos Navalha na Carne e Vinte Passos para a Morte. Mas nunca deixou de frequentar seu verdadeiro lar. Gil chegava ao botequim, aninhava-se em seu trono e papeava com um que chegava, outro que ia. Às vezes, pedia a seu Juan para assumir a cozinha e preparava um arroz árabe para a galera. Num dia qualquer, passava no bar e armava uma caravana para recôncavos do Rio e do mundo. Certa vez, decidiu ir para Las Vegas. Convocado por colegas de trabalho, deputados e delegados, o presidente não deixou o país sem antes passar no “seu” botequim e colher mais um amigo. A turma se esbaldou na jogatina sem se conformar com Gil, que cruzara as Américas apenas para sentar e beber uísque.

Diante de tanta dedicação à boemia, o casamento naufragou, enquanto Gil, de volta a Copacabana, se afogou ainda mais nos copos de cerveja e nos corpos de meninas atrevidas. Gostou tanto do negócio que virou sócio de um estabelecimento especializado no ramo. Numa das avenidas mais famosas de Ipanema, ao lado de uma das creches mais nobres da cidade, a Chapeuzinho Vermelho, nasceu a “Le Loup”, “o lobo” em francês. Nada que incitasse à pedofilia, mas Gil não podia perder a piada.

Em seus ótimos anos, o presidente dizia que morreria antes dos 70. Até que, no inverno de 2009, aos 69 anos, foi ao boteco e convocou a turma para um fim-de-semana em Mury, na Região Serrana do Rio, tudo por conta, como sempre. Comeram e beberam como se não houvesse amanhã, até que o presidente, estranhamente, sentiu a alvorada. Pediu licença, deixou o restaurante e voltou para seu quarto. Só foi visto no dia seguinte, arrumando as malas em meio a vômitos e sangue. Voltaram para o Rio de Janeiro em silêncio, direto para o hospital.





O presidente até deu uma segurada, o problema é que todo ano tem carnaval. E Gil fazia questão de viver até a última dose: bateu ponto na banda de Ipanema e voltou a pé até Copacabana, com paradas estratégicas para abastecimento no Zig Zag, Bar do Biro, Devassa e, claro, seu bar de estimação.

Nessa época, já não falava com os filhos há muito tempo, a ponto de, um dia Giuliano encontrá-lo na rua e ter de se apresentar. Quis o destino tentar, pela última vez, aproximar pai e filho, apesar de o fígado combalido liberar toxinas que causavam dor e delírio. Mas nem no hospital, já muito magro e morimbundo, Gil esboçou qualquer remorso por seus descaminhos. “Nesta vida, você tem que encarar o mundo, e eu encarei”, disse a Giuliano. E fez o pedido derradeiro: suas cinzas deveriam ser deixadas no Bar Barata Ribeiro, sem choro nem vela.

E assim foi. Em 10 de abril de 2010, um mês depois do carnaval, o presidente encontrou a morte. E numa tarde de outono, pelas mãos de seu filho, retornou à boemia eterna.

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